O artesão Acácio José de Almeida,
já bem conhecido no concelho de Vila Pouca de Aguiar, é natural da aldeia de
Cabanes, da União de Freguesias de Pensalvos e Parada de Monteiros. Prestes a completar
77 anos, o seu legado inclui duas filhas, cinco netos e três bisnetos. Foi no
Museu Etnográfico Acácio Almeida, localizado em diversas áreas do rés-do-chão
da sua habitação em Cabanes, e que foi inaugurado em 2001, que recebeu o
Notícias de Aguiar.
Além de um museu, é possível ver
uma biografia das várias componentes que fizeram parte da vida do seu autor. Começou
aos 14 anos na área da carpintaria e explica que fez “um pouco de tudo” ao
longo de 12 anos.
A 22 de abril de 1974, três dias
antes do 25 de Abril, tomou a decisão de emigrar para França, como carpinteiro
na área da construção civil onde já se havia lançado, e levou cinco
trabalhadores que já tinha consigo. É em França que erige a primeira Torre
Eiffel com fósforos previamente acesos, ideia essa que lhe surgiu no seu tempo
de serviço militar obrigatório onde esteve de baixa devido a um problema de
saúde. Acácio Almeida conta que por a notícia da Torre Eiffel ter saído no
jornal com este feito, algumas empresas de fósforos contactaram-no no sentido
de serem fornecedoras do artesão. Outra curiosidade que referiu foi o facto de
no jornal terem dado a indicação de que “quem não souber o que fazer aos
fósforos, pode entregá-los ao Acácio Almeida, na Rua de Santa Maria, que era
onde eu habitava, porque faz artesanato com fósforos”, comenta.
Após cinco anos, e por lá ter
familiares, mudou-se para a Suíça, onde permaneceu 20 anos, trabalhando não só
na área da construção civil, mas também ascendendo a encarregado, responsável
pela manutenção de um lote de 250 apartamentos. É nesta fase da sua vida que se
lança noutros territórios e que funda o rancho folclórico Os Amigos de Vila
Pouca, e tira um curso de árbitro, área na qual permaneceu cerca de 16 anos.
Foi quando esteve de baixa devido
a um acidente, ainda em solo suíço, que produziu a segunda Torre Eiffel com fósforos,
mas, desta vez, de maiores dimensões. “Para passar o tempo, dediquei-me a fazer
a Torre Eiffel onde usei 13.200 fósforos durante 220 horas de trabalho”. Com
1,50m de altura e 70 centímetros de largura, tem ainda um elevador elétrico e
luzes. É também nesta altura que o
aguiarense fabrica uma miniatura da sua casa de Cabanes, com iluminação, que
levou cerca de 200 horas a ser construída e que nos mostra, orgulhoso.
“Tenho muito orgulho da minha aldeia”
“No ano 2000 cheguei a uma
conclusão: já passei 27 anos no estrangeiro, será a altura de regressar ao meu
país que muito adoro. Regressei e foi nessa fase que me dediquei à parte do
artesanato em 2001”, explica Acácio Almeida, trazendo também as obras que havia
feito além-fronteiras, e inaugurando o Museu Etnográfico Acácio Almeida.
É também após este regresso a
Portugal que o artesão de Cabanes assume o papel de autarca, “durante 16 anos,
na Junta de Freguesia de Pensalvos”, atual União de Freguesias de Pensalvos e
Parada de Monteiros.
Nas várias fases da sua vida,
Acácio Almeida sempre produziu peças, com vários materiais, e a arte sempre
esteve presente ao longo da sua vida. Apesar de também trabalhar áreas como a
serralharia e a pintura, por a sua base ter sido na carpintaria, os trabalhos
em madeira são os que mais satisfazem o aguiarense.
Planeamento detalhado das obras
A ideia de um projeto pode
“marinar” vários dias, e até semanas, na sua cabeça para depois a passar para o
papel, seu grande aliado, onde o artesão é um grande apologista de lá anotar
todo o planeamento de forma minuciosa e todas as medidas necessárias para a
produção da peça.
“Nem todas as ideias saem bem à
primeira”, admite, reforçando que o planeamento é muito importante e sem o qual
não passa à ação.
É no seu escritório que faz este
processo. “Eu tenho a quarta classe, foi o que os meus pais me puderam dar, mas
sou muito forte, ainda hoje, em matemática e em desenho. Antes de concretizar
as minhas obras, primeiro vou analisá-las. Se eu amanhã quiser fazer qualquer
coisa, ainda hoje me sento no escritório para tirar umas medidas e isso dá
muito jeito porque depois já tenho uma base”, esclarece.
É no seguimento desta ideia que
Acácio Almeida partilha que, não raras vezes, as ideias surgem de noite. “Eu
fiz uma marcha aqui para a aldeia de Cabanes. Na altura, já tinha quase tudo, mas
faltava uma palavrinha para completar o CD. E não é que a ideia vem durante a
noite? Acordei sobressaltado, veio a ideia, levantei-me e vim ao escritório cá abaixo
para apontar a palavra”.
A arte de trabalhar a madeira que veio de família
Tanto o avô como o pai do
aguiarense produziam as típicas socas em madeira e um dos irmãos do pai fazia “muito
bem os carros de bois”, ofício que aprendeu, mas não se identificou por ser uma
“arte muito mais pesada”, comenta. “O meu forte eram armações nas casas, tudo
feito à mão, e restaurar casas”. Fez a sua própria versão da carpintaria e
afirma que as obras são “coisas que eu imaginei, fiz, e a partir daí foi crescendo
pouco a pouco”.
O artesão considera que a arte da
madeira “já vem da pessoa”, mas salienta que “melhorei muito na tropa, onde o meu
professor também era carpinteiro, e foi lá que comecei a trabalhar com máquinas
porque aqui, na altura, eu trabalhava com ferramentas manuais”.
Sobre a matéria prima da madeira,
o habitante de Cabanes explica que tem de se saber trabalhá-la. “É preciso
saber o tempo de secagem, como é que ela deve ser trabalhada, qual é a altura
de cortar a madeira, tudo isso são coisas que eu estudei”. Também a origem da
madeira dita diferentes formas de a trabalhar, ou seja, “a madeira do carvalho
é dura, mas a de pinheiro é mole, o choupo também e, primeiro, tenho que fazer
testes”, esclarece.
“Tudo o que é
miniatura é o que dá mais trabalho”, adianta Acácio Almeida relativamente às diversas
miniaturas presentes na sua coleção privada. “Por exemplo, fazer uma porta é
fácil, coloco a madeira na máquina aqui e já está a sair do outro lado. Para
estas miniaturas é precisa muita dedicação e paciência”. O aguiarense relembra
que as suas peças, sendo feitas à mão, acabam por ser únicas, ao contrário do
processo feito em fábricas que as produzem maquinalmente.
Não
consegue decidir que tipo de projetos mais gosta de fazer, uma vez que admite
que gosta “de fazer tudo”.
O artesão
aguiarense confessa que tem pena que o seu legado não tenha seguido com a arte da
carpintaria e do artesanato e admite ceder algumas das suas peças. “Custa-me um
bocadinho e queria fazer uma doação, já tinha falado com a Câmara, mas como
património meu”. Refere ainda que profissões como a sua tinham maior
empregabilidade, “eu arranjava mais facilmente um trabalho com a minha
profissão no estrangeiro do que uma pessoa estudada”.
A
nível de artesanato, recorda-se de, na aldeia de Cabanes, além dos seus
familiares, haver quem “fizesse muito bem os bombos e reparações musicais nas
concertinas”, contudo, neste momento, será o único artesão da aldeia.
Para Acácio
Almeida, o artesanato sempre foi um hobby “que faço por gosto”, reforça, e não
uma forma de sustento, razão pela qual raramente vendeu peças suas.
Texto e fotos:
Ângela Vermelho