Mel e carne barrosã excluídos da lista do Mercosul
O mel do Barroso e a carne Barrosã, ambos com Denominação de Origem Protegida (DOP), não constam da lista de mais de 300 produtos da União Europeia abrangidos pelo acordo com o Mercosul. A exclusão surpreendeu a Cooperativa Agrícola de Boticas (Capolib), responsável pela comercialização destes dois produtos.
A exclusão apanhou de surpresa a Cooperativa
Agro-Rural de Boticas (Capolib) que diz desconhecer os critérios utilizados. A
cooperativa, responsável pela comercialização do mel do Barroso e da carne
Barrosã, já pediu esclarecimentos.
“Não sabemos quais foram os critérios utilizados para alguns produtos
constarem do tratado e a carne Barrosã e o mel do Barroso, assim como muitos
outros produtos portugueses com alguma relevância no mercado, não constarem nessa
lista”, afirmou o Presidente da Capolib.
Albano Álvares adiantou que a
exclusão “foi uma surpresa para nós e já
indagamos”, estando a cooperativa a tentar obter explicações junto da Confederação
Nacional das Cooperativas Agrícolas, Confagri, da qual é filiada, e do
Ministério da Agricultura.
O acordo da União Europeia com o
Mercosul, que incluiu países como Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, mudará
a forma como centenas de produtos europeus são vendidos na América do Sul.
Trinta e seis produtos portugueses passam a ter os seus nomes oficialmente
protegidos, impedindo que fabricantes locais utilizem designações tradicionais
sem respeitar a origem.
Segundo a Comissão Europeia, o
acordo garante a proteção legal de 344 nomes de produtos agrícolas, vinhos e
bebidas alcoólicas deixando de parte, o mel do Barroso e a carne Barrosã, proveniente
de bovinos desta raça autóctone portuguesa.
Albano Álvares considera que o
mel do Barroso poderia ter potencial naquele mercado, sublinhando que “o nosso mel é diferente” e referindo o
chamado “mel de urze”, que descreve
como “mel específico e que talvez tivesse
alguma importância”.
Já quanto à carne, revela que a
exportação para o Mercosul não teria grande expressão, mas insiste na
necessidade de clarificação do critério. “É
uma questão também sabermos qual foi o critério que foi utilizado para uns estarem
na lista e outros não estarem na lista. Portanto, é uma questão que nós
gostaríamos de esclarecer”.
A Capolib exporta atualmente mel
para França e está a concretizar uma encomenda de mel biológico para os
Emirados Árabes Unidos. “Neste momento, estamos
com uma encomenda que estamos a concretizar para os Emirados Árabes Unidos e
que será importante para nós se concretizar esse negócio”, explicou.
No caso da carne Barrosã, a
produção é maioritariamente absorvida pelo mercado nacional. A cooperativa
conta com cerca de 220 produtores associados, distribuídos por vários concelhos
do norte do país. “Se tivéssemos muito
mais vitelas vendíamos mais 10 a 15 vitelas por semana”, disse.
O volume de negócios da carne
deverá atingir 1,5 milhões de euros este ano, integrando um total de cerca de
dois milhões de euros de comercialização da cooperativa, que inclui outros
produtos como as trutas, os produtos hortícolas, cabrito, cordeiros, batata,
fumeiro e pão.
CAPOLIB APOSTA NA VALORIZAÇÃO DE COGUMELOS SILVESTRES COM NOVO PROJETO
Além da carne e do mel, a Capolib
está a desenvolver um projeto de valorização de cogumelos silvestres,
financiado pela Fundação La Caixa, em parceria com a Aquavalor e o Instituto
Politécnico de Bragança (IPB), que permitiu criar uma linha de processamento e
embalagem e acrescentar valor ao produto local.
Paulo D’Além, gerente da Capolib,
explicou que a iniciativa surgiu na sequência de um concurso promovido pela
Fundação La Caixa para apoiar projetos inovadores no interior do país. “Quando soubemos desse concurso, a
cooperativa candidatou-se e o projeto foi aprovado”, afirmou.
Segundo o responsável, cada
entidade assumiu funções específicas. “A
responsabilidade da cooperativa é criar uma linha de processamento e de
embalagem dos cogumelos. O IPB teve a responsabilidade de formar os coletores e
credenciá-los para a apanha dos cogumelos. E a responsabilidade da Aquavalor é
desenvolver novos produtos à base de cogumelos”, explicou.
O projeto arrancou este ano com a
comercialização de três espécies silvestres, ‘boletos’, ‘pé de carneiro’ e ‘cantarelos’,
apanhadas essencialmente no concelho de Boticas.
“Este ano começámos a comercializar três espécies diferentes”,
referiu Paulo D’Além, sublinhando que, numa fase inicial, os cogumelos são
exclusivamente do concelho, embora exista a intenção de alargar a outros
territórios.
Os produtos chegam ao mercado em
três formatos, fresco, congelado e desidratado. “Inicialmente, a forma mais usada foi desidratados, porque é a forma
como eles aguentam mais tempo, sem despendermos muito dinheiro na conservação”,
explicou.
Segundo a Capolib, para garantir
a segurança e qualidade do produto, todos os coletores receberam formação do
IPB. “Todos os coletores que entregam
cogumelos aqui tiveram formação lecionada por professores do IPB de Bragança.
Só depois de terem formação teórica e prática é que estão aptos para nos
entregarem os cogumelos”, afirmou.
A Unidade de Seleção e
Transformação de Cogumelos Silvestres (Cozinha Rural) foi inaugurada a 20 de
janeirode 2026 pelo Secretário de Estado das Florestas, Rui Ladeira. O espaço
de processamento está equipado com bancadas de seleção, laminadoras,
desidratadores e câmaras de refrigeração positiva e negativa. “O espaço foi todo financiado através do
projeto da Fundação La Caixa”, destacou.
O trabalho é sazonal,
acompanhando as épocas de apanha, que decorrem no fim do outono e no início da
primavera.
PROJETO QUER ACRESCENTAR VALOR
De acordo com Paulo D`Além, a
principal ambição passa por reter valor na região e combater o desperdício. “Em primeiro lugar, é acrescentar valor a
produto já existente nas nossas comunidades locais, em que a maior parte dos
cogumelos, muitos deles nem eram aproveitados”, afirmou.
Paulo D’Além salientou ainda que
anteriormente parte da produção era escoada sem valorização, inclusive para o
estrangeiro. “Havia muita gente de
Espanha que vinha aqui colher cogumelos e não acrescentavam valor”, disse, adicionando
que, este ano, em algumas categorias, conseguiram “acrescentar cinco euros em quilo”.
Até ao momento, já foram
comercializados 700 quilos de cogumelos. “É
valor que fica cá e que anteriormente ia para fora”, concluiu.
A Cooperativa Agro-Rural de
Boticas atualmente gere 15.000 hectares de baldios e faz a gestão do
território, quer ao nível agrícola, florestal e pecuário. A Capolib abrange 21
concelhos e quatro distritos.
Sara Esteves
Fotos: Carlos Daniel Morais
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17/02/2026
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