Aguiarfloresta quer revisão do novo acordo de co-gestão dos baldios

A Aguiarfloresta – Associação Florestal considera “indispensável” rever a proposta de renovação do Acordo de Delegação de Poderes de Administração de Baldios em regime de co-gestão com o Estado, que está atualmente em análise pelo setor florestal. Esta associação florestal e ambiental considera que a minuta apresentada pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) deverá ser “aperfeiçoada”.

A intenção da Associação Florestal é garantir o “equilíbrio, a transparência e as garantias de boa governação, contribuindo assim para um modelo de co-gestão mais claro, estável e eficaz”, referem num comunicado enviado.

Adiantam ainda que o modelo proposto “não assegura uma verdadeira co-gestão, mas antes uma delegação com fortes assimetrias a favor do Estado” e defendem que existe um “desequilíbrio” entre as exigências impostas às Comunidades Locais e as obrigações efetivas assumidas pelo ICNF.

Referem ainda no comunicado que apesar de o Instituto assumir formalmente “amplas competências”, desde a elaboração dos Planos de Gestão Florestal até à execução de ações no terreno, o contrato “não estabelece padrões mínimos de serviço, metas quantificadas, ou mecanismos robustos de prestação de contas”. Como resposta, esta associação florestal e ambiental propõe que “sejam introduzidas obrigações concretas: visitas técnicas regulares, relatórios periódicos, planos de ação por baldio com cronograma e orçamento definidos”.

Outro ponto levantado pela Associação prende-se com a contrapartida financeira. Segundo esta fonte, a minuta prevê que o ICNF retenha 40% das receitas brutas provenientes não apenas da venda de madeira, mas também de créditos de carbono, biodiversidade ou natureza. Para a Aguiarfloresta, “esta percentagem fixa aplicada sobre receitas brutas é desproporcionada e não demonstra relação direta com os custos efetivamente suportados pelo Estado”. A associação defende que qualquer compensação deve basear-se em custos comprovados, auditáveis e proporcionais, evitando transformar a co-gestão “num mecanismo automático de captação de rendimentos”.

Quanto ao prazo contratual, afirmou a Associação, a proposta aponta para uma duração inicial de 30 anos, com renovações automáticas sucessivas até 90 anos. A Aguiarfloresta considera este horizonte “excessivo e desalinhado com a legislação aplicável aos baldios”, propondo períodos até 20 anos, com prorrogações sujeitas a avaliação e revalidação pelas Assembleias de Compartes.

No que respeita à revogação do acordo, “embora se reconheça o direito das comunidades a cessar a co-gestão, o regime indemnizatório previsto é considerado oneroso e pouco transparente”. Segundo a associação florestal, com sede em Vila Pouca de Aguiar, “a exigência de pagamento de percentagens sobre madeira existente ou créditos gerados pode penalizar injustamente os compartes e limitar na prática a sua autonomia”.

Para a Aguiarfloresta, o modelo de co-gestão deve refletir uma relação equilibrada, com responsabilidades claras para ambas as partes, transparência financeira e respeito pela governação comunitária. A organização sublinha que, nos últimos anos, as Organizações de Produtores Florestais reforçaram significativamente a sua capacidade técnica e presença no terreno, assegurando proximidade, continuidade e eficácia na gestão das áreas comunitárias.

Neste contexto, salienta a Associação Florestal, “defende-se que o Estado deve assumir funções diretas apenas onde não exista capacidade instalada do setor associativo. Onde essa capacidade exista, deve ser valorizada e integrada como elemento central da gestão ativa e sustentável dos baldios”.

Por fim, a Aguiarfloresta concluiu que “a discussão agora em curso poderá ser determinante para o futuro da governação das áreas comunitárias, num momento em que a valorização económica, a prevenção de incêndios e a gestão sustentável do território assumem importância estratégica para o país e para as comunidades locais”.

 

Ângela Vermelho

Foto: Arquivo Aguiarfloresta

 


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06/03/2026

Sociedade

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