Vacas maronesas ajudam na prevenção de incêndios em Vila Pouca de Aguiar

O projeto de gestão do combustível através da silvopastorícia com vacas maronesas tem como objetivo garantir a resiliência de infraestruturas da Redes Energéticas Nacionais (REN), valorizando a raça autóctone, promovendo a biodiversidade e aumentado a fertilidade dos solos. A apresentação decorreu na sexta-feira, dia 29, na subestação da REN, na Serra da Falperra, em Vila Pouca de Aguiar, numa parceria com a Aguiarfloresta e com o Instituto Politécnico de Bragança (IPB).

Pedro Marques, responsável da área de redes sustentáveis e servidões da REN, explica que o projeto tem um “duplo objetivo”, uma vez que garante a “resiliência das nossas infraestruturas aos incêndios rurais através da silvopastorícia extensiva, com recurso às vacas maronesas” e que “leva à valorização de uma raça autóctone” promovendo a “biodiversidade e aumentando a fertilidade dos solos”.

Trata-se de uma área intervencionada de “cerca de sete hectares” na zona envolvente da subestação da REN, refere Pedro Marques, onde a ideia do projeto foi “muito bem-recebida” pelo produtor envolvido. “Temos aqui uma relação em que todos ganham, estamos a criar valor partilhado não só para a REN, mas também para a comunidade, para o território e para o produtor, que tem um papel fundamental.  Este projeto, acima de tudo, também valoriza aquilo que é a tradição da silvopastorícia”. O projeto terá a duração de cinco anos, tendo iniciado no ano de 2025.

A ligação entre as diversas entidades é feita pela Aguiarfloresta – Associação Florestal e Ambiental de Vila Pouca de Aguiar que articula a parte logística do processo entre a REN, o IPB e o produtor da raça maronesa.  Duarte Marques, Presidente da Direção da Aguiarfloresta, explica que tiveram de “melhorar a pastagem, falar com o criador para pôr as vacas, criar um conjunto de condições, como vedações”.

O Presidente da Direção Aguiarfloresta explica que há diversos animais a ajudar no processo de gestão do combustível através da silvopastorícia, mas que a vaca maronesa tem especificidades que a destacam. “As raças autóctones têm características mais peculiares, porque este animal [vaca maronesa], além das pastagens, também come matos, enquanto que há outros animais bovinos de raças exóticas que não estão adaptadas às nossas serranias e não as sobem, ou sofrem muito quando o fazem”.

O responsável pela Aguiarfloresta explica que, para tal acontecer, é necessário encontrar parcerias com os criadores e os diferentes atores locais e sublinha que deve haver um “reconhecimento social da importância da permanência dos criadores e destas raças no território”.

No caso da subestação da REN, refere Duarte Marques, “tem uma área muito extensa para gerir” e, com este processo, acabam por gerar “um conjunto de benefícios ambientais que são mais relevantes”. O responsável pela Aguiarfloresta relembra que, muitas vezes, as empresas utilizam “mecanismos mais habituais, que é a gestão de matos por mecanismos de corte de mato, mas também podem recorrer a outras soluções que são mais interessantes do ponto de vista ambiental, porque não queimam combustíveis fósseis, que são mais importantes, porque ativam a economia do local, e produzem carne e outros produtos”.

Neste sentido, defende Duarte Marques, “o território fica mais rico porque há geração de mais valor e, naturalmente, o valor também é fixado no território”.

Quanto ao apoio ao produtor, o Presidente da Aguiarfloresta adiantou ao Canal Alto Tâmega que, além de todo o equipamento que está disponibilizado, os criadores vão ter apoio financeiro para efetivar a gestão da silvopastorícia. “Vão ter uma compensação, para além do apoio de toda a infraestrutura, porque isto permite-lhe deixar aqui os animais e podem fazer outras atividades. Permite-lhe pôr o feno e ser mais aproveitado, fertilizamos a pastagem e dá mais produtividade, e há um ganho do sistema”.

Eduardo Silva é produtor de vacas da raça maronesa e confirma as vantagens do processo. Lida com animais bovinos desde os quatro anos e refere que “sempre foi a minha vida desde pequenino”. Afirmou já conhecer o potencial das vacas na prevenção dos incêndios, tanto por costumes antigos, como através de uma experiência num terreno que comprou. “Antigamente, às vezes metíamos a vacas nas matas e elas devoravam aquilo tudo (…) e há sete ou oito anos comprei uma mata, ao pé da minha casa, e hoje está tudo limpo”, reforça o produtor.

Os animais, cerca de 12, ficarão na área circundante da subestação da REN “até ao fim de julho”, adianta Eduardo Silva que, no total, tem cerca de 40 animais da espécie.

Carlos Aguiar é professor no IPB e no projeto em causa é o coordenador da avaliação e monitorização ambiental. Considera que o papel do Instituto no projeto é uma “obrigação social e tem o dever de investigar e de divulgar ações que sejam especialmente úteis, que se reproduzam e que tenham um output em que haja ganhos ambientais e económicos”.

A nível prático, explica o professor, “a vegetação herbácea é uma vegetação que cria descontinuidades. E se nós queremos ter alguma mão nos fogos, temos que ter descontinuidades com vegetação herbácea, ou seja, com pastagens”. Quanto à limpeza do terreno, segundo Carlos Aguiar, uma vaca maronesa come quatro toneladas de matéria seca por ano.

O coordenador da avaliação e monitorização ambiental sublinhou também a relação com o fogo. “O fogo será sempre necessário, temos é que usar o fogo na altura certa, cruzado com pastoreio e quando se faz, o ciclo de recorrência de necessidade desse fogo diminui”, explica.

Carlos Aguiar vai ainda mais além e fala nos antepassados. “Em vez de arder em ciclos muito curtos, pode arder em ciclos mais longos ou arder, que é aquilo que nós desejamos, de forma tópica, local, arder um bocadinho aqui, outro bocadinho ali. Retornarmos àquele velho fogo, o fogo pastoril, que os nossos antepassados sabiam fazer tão bem e que se foi perdendo”. Desta forma, existência do projeto junta o “conhecimento tradicional, com alguma inovação científica e uma reunião de vontades”, conclui.

Segundo o professor do IPB, no projeto há um bem comum às várias entidades. “Usa-se uma palavra inglesa, ‘win, win’, que é ‘ganhar, ganhar’, todos ganhamos com isto. Nós aprendemos, que é a função da academia, para depois divulgar e aplicar, a REN cumpre o seu papel, e a Aguiarfloresta, como uma organização de nível local, também cumpre o seu próprio papel”.

Com base na experiência adquirida com outros projetos, como o Life Maronesa, na Serra do Alvão, e agora na Serra da Falperra, a Aguiarfloresta pretende continuar a replicar o projeto de gestão do combustível através da silvopastorícia. Também a REN admite que o projeto “pode ser replicado noutros territórios e com outras espécies animais, sempre preferencialmente autóctones”, referiu Pedro Marques.

 

Texto e fotos: Ângela Vermelho

 


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01/06/2026

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