Moinhos são motor para avivar tradições e cultura em Vila Pouca de Aguiar

No município de Vila Pouca de Aguiar a comemoração iniciou no Welcome Center de Pedras Salgadas, com a tertúlia “Os Moinhos da Nossa Região”, com os oradores António Machado e José Rio Costa, ambos detentores de moinhos, e Patrícia Machado, arqueóloga.

Após a tertúlia, a Tuna da Universidade Sénior Terras de Aguiar (USTAG) brindou os presentes com uma atuação. Seguiu-se a visita a dois moinhos, que culminou num lanche-convívio em Tourencinho, com broa feita com a farinha produzida pelo moinho, e com o apoio da Junta de Freguesia de Telões.

Colocar um moinho a funcionar não é para toda a gente

António Machado, natural de Telões, diz que é o único capaz de o fazer na freguesia, “cá em Telões não há mais ninguém que saiba pôr um moinho a trabalhar”. O detentor do moinho explica que, para a moagem sair bem, tem de estar tudo muito bem alinhado. “As pedras têm que ficar rigorosamente paralelas, a que está parada por baixo, que é o pouso, e a outra que se põe por cima, porque se não, não produz farinha como deve ser”. O tipo de farinha a produzir, também depende da regulação deste mesmo mecanismo, diz António Machado, “se quer mais grossa, levanta a pedra, quer mais fina, baixa a pedra”.

O aguiarense tem um moinho de água na freguesia de Telões, um dos dois visitados no dia 08 de abril, e que foi herdado, uma vez que, inicialmente, havia sido construído pela família do seu bisavô, perto do ano de 1830, no século XIX, que passou para o avô e posteriormente para o pai de António Machado.

Na altura, a projeção do moinho foi pensada para consumo familiar, para evitar custos adicionais e “para ter farinha quando se quisesse”. “Foi sempre para consumo da casa, porque era uma casa agrícola que tinha muitos trabalhadores e então houve a necessidade de fazer um moinho para não pagar a maquia, que era aquele contributo que as pessoas pagavam para moer”. O aguiarense relembra que “em cada alqueire de 12 quilos, tiravam dois quilos para o moleiro”.

Atualmente, a existência deste moinho serve para a preservação de património cultural e António Machado considera que o seu moinho é “um museu vivo para quem quiser ver como é que antigamente se fazia farinha”. Recorda que, sendo um moinho de água, dependem do caudal do rio para fazer mover o mecanismo, razão pela qual “só costuma moer durante o inverno”, onde a água é abundante e tem mais força.

António Machado diz já ter passado os seus conhecimentos sobre a moagem aos filhos e espera que “algum deles queira dar continuidade” ao legado do moinho.

 

“É preciso reanimar o passado para não se perder no espaço e no tempo”

O Moinho da Ponte Tabuada, em Tourencinho, pertence a José Rio Costa e a outra conterrânea da aldeia, Emília Alves, que o recuperaram e “está sempre aberto para a comunidade visitar”, explica o antigo professor primário, que abre portas a “escolas, grupos de escuteiros e universidades, como hoje está aqui a Tuna da Universidade Sénior de Vila Pouca de Aguiar, e a muitos pedidos e convites”.

 A origem do nome do moinho deve-se ao facto de a ponte que está junto ao moinho ser feita, originalmente, de tábuas de madeira, esclarece José Rio Costa.

Apesar de os pais não terem sido exclusivamente moleiros, diz o detentor do moinho, “dedicavam-lhe grande parte da sua vida e o meu pai trabalhou 33 anos como moleiro”.

José Rio Costa explica que, antigamente, o moinho “funcionava a dias”, ou seja, havia uma pessoa que tinha um determinado número de dias, outra teria outros dias, e cada uma ia naqueles dias próprios fazer a moagem dos cereais. Salienta que não se tratava de um moinho comunitário, “era de herdeiros”. Emília Alves adquiriu “parte dos dias, porque havia várias pessoas que tinham cá dias, eu adquiri alguns por herança e outros foram dados, e eu e a engenheira Emília Alves somos os únicos sócios”.

José Rio Costa acredita que manter o moinho “é bom para divulgar este passado, que já está um bocadinho desaparecido, mas é preciso reanimá-lo que é para não se perder no espaço e no tempo”.

A existência dos moinhos remonta ao tempo pós Era dos Descobrimentos, adianta José Rio Costa. “Após os Descobrimentos Portugueses, as sementes do milho vinham da América, que se começaram a expandir para Portugal inteiro e pela Europa. Nesse momento, conforme apareceram estas sementes, foi-se cultivando o milho e houve necessidade de arranjar utensílios para o triturar e para o moer. Por isso é que surgem muitos moinhos nessa altura, porque agora já ninguém constrói moinhos, estes são todos mais ou menos do século XVIII e por aí adiante”.

Segundo o orador, no Norte, a maior parte dos moinhos “são de rodízio horizontal, funcionam todos com aproveitamento da água, e como há grande declive nas ribeiras e nos rios, geralmente a roda é feita a andar na horizontal e não na vertical”. Na ribeira onde está localizado o seu moinho, existem mais dez moinhos, mas apenas o seu está em funcionamento. José Rio Costa acredita que há “cerca de 300 moinhos aqui no município de Vila Pouca de Aguiar”, mas apenas três estão a funcionar, incluindo os dois da visita.

Segundo o aguiarense, a descoberta da eletricidade e a revolução industrial levou a que os moinhos tradicionais deixassem de ser necessários. “A partir do momento que apareceu a energia elétrica, eram mais rentáveis, moíam mais rápido, a mesma quantidade era mais rapidamente moída, embora perdesse qualidade, porque quanto mais rápido andar o moinho, mais fraca é a qualidade da farinha (…) porque a fricção, sendo com mais velocidade, altera o sabor da farinha”, contextualiza.

Já dizia o ditado

O antigo professor do 1º ciclo relembra o ditado “é preciso uma pedra mole e uma pedra dura para fazer farinha” que, refere, “liga-se muito aos casais que, para se darem bem, é preciso um ser mais duro, outro mais mole, porque se forem os dois duros, nunca se entendem, se forem os dois moles, também são dois bananas e também não se entendem”.

E falando em relações, José Rio Costa apresenta a “fonte do amor”. Explica que perto do moinho há “uma fonte muito pequena, mas que nunca seca no verão, e era aqui que as pessoas se alimentavam da água na aldeia, especialmente as raparigas, que vinham com a cantarinha de barro”. O dono do Moinho da Ponte Tabuada conta que “as meninas vinham com a cantarinha de barro buscar a água para beberem à noite, na fresquinha, e especialmente à noite é que sabia muito melhor vir cá, então os rapazes vinham para namorar raparigas, por isso é que eu digo que é a fonte milagrosa”.

O aguiarense revela que provou dessa água e também foi afetado por esse milagre. “Eu tenho essa experiência própria porque a minha esposa morava naquela casa lá em cima, e vinha buscar a água. Eu tinha aqui uma casa que dava para a casa dela, e como sabia que ela vinha mais ou menos àquela hora, eu vinha aqui ter para namorar com ela”. No início não era fácil, já que a mãe da namorada estava de olho e mostrava o seu desagrado da varanda, chamando a filha de volta. Para contornar a situação, revela José Rio Costa, a namorada “chegava a meio do caminho, vertia a água e depois tornava outra vez para trás e dizia que tinha deixado verter a água sem querer, que era a maneira de estar mais um bocadinho de tempo”, relembra.

Afirma que na fonte “namoraram muitos casais que se casaram” e a prova disso é a sua história pessoal, já que a fonte o uniu à sua futura esposa até aos dias de hoje. “Há também uma canção de Tourencinho, que é muito tradicional, que fala nos três largos de Tourencinho”, avança José Rio Costa, para depois a recitar.

 

Tourencinho tem três largos

O mais lindo é o da Capela,

Onde está a Nossa Senhora

A servir de sentinela.

 

Adeus Largo da Fontinha

Carreirinho das formigas

Onde os rapazes se sentam

À espera das raparigas.

 

Adeus Largo da Lameira

Semeado davas pão

Já me deste alegria

Agora dás-me paixão.

 

 

Moinhos da exploração mineira com princípio utilizado no mundo automóvel

Patrícia Machado, arqueóloga na Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar, foi uma das oradoras da tertúlia, trazendo uma visão diferente dos moinhos, relativa à exploração mineira.  “É uma perspetiva mais industrial da produção e associada às minas de ouro que existiram no concelho em Época Romana, nomeadamente em Tresminas”.

Um dos contributos da sua presença era dar a conhecer “a questão da moagem de pedra, tendo em vista o aproveitamento de ouro, porque não deixam de ser moinhos, e porque acabam por ser os precursores daquilo que mais tarde vem a ser estes moinhos de cereais que chegam até os nossos dias, já por via da etnografia”.

A arqueóloga explica que, fruto dos trabalhos mais recentes que realizaram em Tresminas a nível de investigação, as pessoas “já conseguem hoje visitar uma parte da exposição dedicada exclusivamente a estes blocos de granito que foram sendo extraídos e trabalhados para que depois a mina pudesse aproveitar a rocha mineralizada e fornecer Roma de ouro fino, para a cunhagem de moedas”.

Patrícia Machado informa que “os moinhos de que falamos, em Tresminas, são exatamente da mesma família [dos moinhos rotativo de cerais] de há 2000 anos a esta parte, com o mesmo princípio”.  Contudo, há diferenças, uma vez que a “rocha escolhida para o moinho de cereal é muito diferente da rocha que é escolhida para a moagem de rocha”. A oradora salienta ainda a sábia utilização na escolha dos materiais. “É a sofisticação a que chega Tresminas na escolha da matéria-prima disponível no território para uma e para outra função”.

Uma outra distinção salientada pela arqueóloga são os “as britadeiras, ou seja, os moinhos maiores” e que “de repente deixam de existir”. Estes permitiam “a trituração grosseira da rocha, que nós hoje temos no nosso dia-a-dia, mas que nem vemos, porque o princípio desses moinhos da Época Romana é hoje ainda utilizado no mundo automóvel, nas cambotas dos motores dos carros”.

Em modo de conclusão, diz Patrícia Machado, “são princípios e conhecimentos que, em diferentes momentos da história, foram aplicados para diferentes funções”.

 

“Os moinhos são importantes para a nossa cultura e as nossas tradições”

Para Diogo Fernandes, Vereador da Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar, é importante a valorização deste legado cultural. “É sempre bom valorizar aquilo que nos deixaram e os moinhos realmente são importantes para a nossa cultura e as nossas tradições”.

Por outro lado, lamenta que seja difícil avançar com a recuperação de alguns moinhos já assinalados pelo município devido, por exemplo, à quantidade de herdeiros. “É pena não termos mais moinhos recuperados, mas os que temos são importantes tanto para o nosso turismo, como para a nossa população”, refere.

O Vereador acredita que ainda poderá ser possível a recuperação de alguns moinhos. “Um dia, quem sabe, ter mais moinhos recuperados que existem na nossa terra, principalmente nesta freguesia, em Bornes de Aguiar, onde existe um moinho de água que está ao abandono e era importante recuperá-lo”, admite.

Segundo a Etnoideia, entidade responsável pela reconstrução de moinhos tradicionais e património rural, a 19ª edição do “Dia dos Moinhos Abertos” pretende “chamar a atenção dos portugueses para o inestimável valor patrimonial dos nossos moinhos tradicionais, por forma a motivar e coordenar vontades e esforços de proprietários, organizações associativas, autarquias locais, museus, investigadores, molinólogos, entusiastas e amigos dos moinhos”.

A Etnoideia estima que façam parte da iniciativa 234 moinhos – 98 dos quais isolados e 136 inseridos em núcleos moageiros – inseridos em 16 distritos do continente e um nos Açores, envolvendo 65 municípios no total.

 

Texto e fotos: Ângela Vermelho