A Associação dos Industriais do
Granito (AIGRA), sediada em Pedras Salgadas, no concelho de Vila Pouca de
Aguiar, está preocupada com as consequências provenientes da subida dos preços
dos combustíveis, provocada pela guerra no Irão. O aumento deverá refletir-se
no setor do granito, mas também na economia geral, disse o Presidente da AIGRA.
Mauro Gonçalves refere que desde
o Covid não voltaram a ter uma estabilização no mercado e que a situação atual
será mais uma dificuldade para os empresários do setor, “principalmente quando
40% do custo desta indústria é energia, seja combustível ou eletricidade”. O
Presidente da AIGRA dá o exemplo da sua pedreira que gasta “15 mil litros de
gasóleo por mês e o impacto dos 30 cêntimos que tivemos agora cria uma
diferença entre 4.000 a 5000 euros de acréscimo no final do mês”.
Preocupação vai além do preço do gasóleo
Apesar de admitir que já se vive
uma situação “difícil”, Mauro Gonçalves prevê outros problemas com a “subida na
eletricidade”. “Algumas centrais
elétricas na Europa, para produzir eletricidade, utilizam gás. O gás vai ter,
ou já tem, uma subida parecida ao do combustível, ou seja, o que vamos ouvindo
por parte dos nossos políticos, sejam nacionais ou europeus, de que temos que eletrificar
[o setor], e bem, mas a luz vai ter também um aumento significativo. Portanto,
o impacto da energia não será só nessa ordem de grandeza”. O porta-voz da AIGRA
salienta que nas pedreiras utilizam combustível, mas também têm máquinas que
são movidas a eletricidade.
Também os fornecedores já
enviaram avisos de que haverá subida de preços nos materiais. “A partir de
abril, a tendência será de um aumento na ordem dos 40%”, explica Mauro
Gonçalves, revelando que um desses casos será no aço e que “nas pedreiras, ou
nesta indústria, gasta-se muito”. Sublinha ainda que “se fosse um impacto só no
combustível, nós teríamos que nos adaptar e dimensionar durante o curto período
de tempo até que isto passasse, mas não será só isso”.
Preço do granito não pode aumentar devido ao mercado competitivo
Segundo o
representante da AIGRA, os principais clientes da indústria estão no norte da
Europa e, nesta, o “maior consumidor de granito é a França que está em recessão,
assim como a Alemanha. Neste momento, eles querem é que o preço seja mais
apelativo, ou seja, neste momento a procura que existia nesses países é menor,
mas a oferta manteve-se”.
O Presidente da Associação
dos Industriais do Granito reforça que “este setor cresceu 3 a 4 vezes nos
últimos 10 anos, ou seja, neste momento tem uma oferta a nível nacional muito
maior que a procura que recebe e a tendência é os preços descerem e não subirem”.
“Arrefecimento geral da economia”
Em obras que já
estão contratadas, Mauro Gonçalves realça que não podem subir ao preço do
granito. Caso exista uma subida, “os grandes investidores vão considerar que já
não é interessante começar outra obra porque os preços subiram”.
O representante da
AIGRA acredita que os empresários podem optar por outro “tipo de materiais, vão
para as cerâmicas, ou para os compósitos, ou outro tipo de material, e não
utilizam o granito, porque o preço já não é interessante”.
“Medida muito fácil” pode ajudar a ultrapassar a
situação
Mauro Gonçalves
refere que a utilização de gasóleo profissional, que tem menores custos,
poderia ser uma solução “benéfica” para os empresários do setor. O Presidente
da AIGRA e também Diretor da Assimagra, Associação Portuguesa da Indústria dos
Recursos Minerais, destaca que nos últimos 20 anos “sempre nos foi prometido o
gasóleo profissional”, por parte dos diferentes governos.
O representante das
duas associações explica que o gasóleo profissional, assemelhado ao chamado
gasóleo agrícola utilizado no setor florestal há muitos anos, é “40 cêntimos
mais barato”. “Queremos ser tratados com igualdade, como tem Espanha e Itália
no setor extrativo, que têm o combustível 40 cêntimos mais barato que o nosso. Como
é que nós podemos competir com os nossos parceiros europeus, quando eles
conseguem ter custos energéticos nessa ordem de grandeza”, questiona. “Governos
atrás de governos prometem-nos que vão colocar isso em prática e até à data
nada foi feito”, evidencia Mauro Gonçalves.
A nível de controlo
na utilização do gasóleo profissional, o presidente da AIGRA sublinha que se
pode avançar com as regras utilizadas no estrangeiro. “Hoje, para se ter uma
pedreira, ela tem que estar licenciada” com a delimitação da área que abrange e
“a regra seria, como é lá fora: todas as máquinas que não sejam matriculadas e
estejam dentro do perímetro de uma pedreira, poderão utilizar gasóleo
profissional mais barato, 30 ou 40 cêntimos. As máquinas que tenham matrícula e
estão fora do perímetro da pedreira, se forem apanhadas com gasóleo
profissional, que se responsabilizem [os proprietários] e que as multas sejam
grandes”.
Nó de acesso à A24 iria reduzir “desperdício de
combustível”
Mauro Gonçalves explica
ainda que a criação de um nó de acesso à A24, na zona da serra da Falperra, “combatia
o desperdício de combustível, ajudava na segurança e em toda a logística das pedreiras”.
Mauro Gonçalves sustenta que o nó da autoestrada foi “prometido pelo nosso
Primeiro-Ministro há dois anos, na nossa associação nas Pedras Salgadas
[AIGRA], e até hoje nada foi feito e nada foi colocado em prática”. (…) “é mais
uma medida que poderia ajudar os empresários, utilizando os fundos comunitários
que, se forem bem alocados, desenvolvem a economia e alavancam todo o setor”.
Mais de metade das pedreiras do distrito de Vila
Real são em Vila Pouca de Aguiar
Com mais de 50
empresas associadas, a AIGRA representa o setor do granito no distrito de Vila
Real que, segundo Mauro Gonçalves, envolve “500 empregos diretos” e que “tem
mais de 100 empresas ligadas à indústria do granito, à sua extração,
transformação e comercialização, e é o motor socioeconómico principal do
concelho de Vila Pouca de Aguiar”. O representante da AIGRA refere que
atualmente existem 34 pedreiras no distrito de Vila Real, e mais de metade
delas são no concelho de Vila Pouca de Aguiar, sendo que “50% do granito que é
extraído é exportado para os mercados europeus, principalmente para o norte da
Europa”.
“Não acredito que nos próximos tempos, seja
investido nada neste setor”
Mauro Gonçalves
aponta que o primeiro impacto no concelho aguiarense será a falta de novos
investimentos dos empresários no setor. “Não acredito que nos próximos tempos,
seja investido nada neste setor. E não sendo investido nada, este setor não vai
inovar, não vai crescer e deixa de ser competitivo”, lamenta. Recorda também
que “hoje o mundo é global, temos que ser competitivos para vender o nosso
produto lá fora. Se não houver investimento, não há distribuição de riqueza, os
salários não vão poder crescer. Não vamos poder contratar pessoas novas”.
O Presidente da
AIGRA refere que no futuro as empresas terão que se adaptar para “sobreviver”. “Esperemos
que isto seja transitório. Se não for, daqui a um ou dois trimestres, estamos a
falar em empresas a despedir pessoas, empresas em layoff e, no caso mais
drástico, estamos a falar em empresas a fechar”, lamenta Mauro Gonçalves.
Texto: Ângela Vermelho
Fotos: Carlos Daniel Morais