Chaves mostra evolução das práticas funerárias desde a época romana através de uma exposição

A exposição reúne materiais arqueológicos associados à morte, num tema que, segundo o arqueólogo João Ribeiro, da Câmara Municipal de Chaves, contrasta com as exposições habitualmente centradas na vida quotidiana e na história urbana.

“Esta é uma exposição diferente, com uma temática que normalmente não costumamos mostrar, costumamos mostrar temáticas relacionadas com a vida, com as construções, com a cidade e uma vez que tínhamos vários vestígios arqueológicos relacionados com a morte, resolvemos levar esta temática ao povo flaviense e mostrar como é que evoluem as práticas funerárias”, afirmou.

De acordo com o arqueólogo, no período romano existia uma separação clara entre vivos e mortos, com necrópoles fora das cidades. “As práticas funerárias vão evoluindo desde a época romana, onde as necrópoles, os cemitérios, eram colocados fora da cidade. Havia uma clara separação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos”, explicou.

João Ribeiro detalhou ainda que, nessa época, existiam diferentes rituais funerários. “Temos vários tipos de inumação e de incineração. Nós encontramos aqui na necrópole do Largo das Freiras, uma sepultura em caixa de material laterício, vulgarmente chamado material de construção, onde teria depositado um corpo. E encontramos valas de pequenos covachos, onde eram depositadas as cinzas”, refere.

A evolução para a Idade Média trouxe uma alteração significativa na localização dos enterramentos. “Na Idade Média já se passa a fazer o enterramento já dentro das cidades, à volta da igreja, mas também não acaba um período e começa outro, não é automático. Portanto há uma evolução, há reutilização de materiais, mudam certas práticas, ligeiramente até chegarem aos dias de hoje”, referiu.

RECONSTITUIÇÃO FACIAL DE UM JOVEM A PARTIR DO SEU ESQUELETO

A exposição inclui ainda uma reconstituição facial de um jovem sepultado nas ruínas das Termas Romanas de Chaves, no Largo do Arrabalde. “Estamos a falar de um esqueleto de um jovem, entre os 18 e 25 anos, que foi enterrado sob a abóbada das Termas. Tínhamos vestígios debaixo da abóbada e tínhamos um esqueleto perfeitamente conservado de um jovem que terá falecido provavelmente depois da abóbada cair”.

Segundo João Ribeiro, o esqueleto estava “bom estado de conservação do esqueleto”, dada a água mineral. “A própria água mineralizou os ossos, deu-lhe uma tonalidade metálica e conservou perfeitamente as ossadas”, o que permitiu reconstruir digitalmente o seu rosto. “Foi possível fazer o modelo 3D do crânio e depois, juntamente com a antropologia e com o marcador de profundidade dos músculos e da pele, fazer uma aproximação facial, ou seja, tentar dar um rosto ao passado”.

“Conseguimos dar um rosto e tentar perceber como é que seria esse jovem, que apesar de ser tão jovem já tinha várias patologias caries, faltavam-lhe dentes e tinha algum desgaste ósseo”, afirmou.

Acreditam que o jovem viveu em Aquae Flaviae, há quase dois mil anos, estaria “a fazer o saco de pedra das paredes da abóbada das termas que caiu” no Largo do Arrabalde.

“Provavelmente ele morreu ali e terá sido uma maneira de sacralizar aquele espaço. Ele foi enterrado com telhas das termas romanas, criaram uma caixa e sepultaram ali o corpo”.

A mostra propõe uma viagem pelo universo simbólico da morte na região flaviense, e aborda práticas, rituais e formas de preservação da memória desde a época romana até à contemporaneidade. O percurso expositivo reúne testemunhos arqueológicos, entre os quais sepulturas de inumação, estelas funerárias, cupae, sarcófagos medievais e diversos materiais associados a contextos funerários descobertos em Chaves.

A exposição aborda ainda a evolução das práticas mortuárias entre a Antiguidade Tardia e a Idade Média, marcada pela expansão do cristianismo e pela transformação dos espaços urbanos, integrando também referências à memória da guerra, aos enterramentos em espaços religiosos e à evolução dos cemitérios, explicou a autarquia flaviense.

EXPOSIÇÃO MOSTRA ESPÓLIO ARQUEÓLICO QUE ESTEVE INACESSÍVEL À COMUNIDADE DURANTE ANOS

Segundo o vice-presidente da Câmara Municipal de Chaves, Tiago Caldas, a mostra demonstra “o espólio arqueológico, que muitas vezes e durante muitos anos, esteve fechado e não acessível à comunidade, num ciclo temático em torno da morte, num contexto provocador, mas acima de tudo que representa dois mil anos de história de povos que por aqui passaram”.

RENOVAÇÃO DO MUSEU DA REGIÃO FLAVIENSE E ESTRATÉGIA TURÍSTICA

O município adiantou que nos próximos anos o Museu da Região Flaviense sofrerá uma renovação, integrada numa estratégia mais ampla de valorização cultural e turística do concelho, disse o vice-presidente.

Segundo Tiago Caldas, o objetivo passa por reforçar a rede museológica e criar experiências integradas que incentivem os visitantes a permanecer mais tempo em Chaves e no território do Alto Tâmega e Barroso.

“Em 2025, Chaves teve 315 mil dormidas, 188 mil hóspedes e agora estamos muito concentrados em aumentar a estada média dos nossos turistas. Ela em 2025 situou-se em 1,7 e aquilo que nós queremos é que eles possam ficar no objetivo dos 2.2”, explicou.

O vice-presidente acrescentou que está a ser preparado um modelo de “rede de museus” e de bilhete único, permitindo maior circulação entre equipamentos culturais.

“Estamos a trabalhar numa lógica de rede de museus, de projeto de bilhete único para que os turistas possam circular pelos vários espaços e possam ficar mais tempo”, disse.

CENTRO ECUMÉNICO DEVERÁ ABRIR EM BREVE

O novo Centro Ecuménico da cidade, junto à igreja Matriz, encontra-se na fase final de conclusão, com a obra praticamente terminada, disse Tiago Caldas.

“O centro Ecuménico está quase a terminar, está nos detalhes. (...) o processo está quase a ser finalizado, a obra está quase terminada para que possamos propiciar à nossa comunidade há mais um serviço tão essencial”, afirmou.

Segundo o mesmo, o equipamento pretende responder a uma necessidade antiga da população, que oferecerá condições modernas para cerimónias funerárias.

A exposição “SEPVLCRVUM MEMORIA AETERNA”, promovida pelo município, foi inaugurada na segunda-feira, dia 18 de maio, e permanece patente até 31 de dezembro de 2026 no Museu da Região Flaviense, com entrada livre.

Sara Esteves

Fotos: Carlos Daniel Morais